Reviravolta expõe as dificuldades da aposta original da empresa no metaverso em realidade virtual.
Em poucos dias, a Meta protagonizou um dos episódios mais confusos de sua história recente no setor de realidade virtual. A empresa anunciou o fim do Horizon Worlds nos headsets Quest, recuou menos de 24 horas depois e deixou no ar uma dúvida que resume bem o momento do setor: afinal, o metaverso em realidade virtual ainda tem futuro dentro da própria empresa que cunhou o termo?
O caso interessa a qualquer pessoa que acompanha o destino de headsets, avatares e mundos virtuais, porque mostra, de forma bastante direta, como uma das maiores apostas tecnológicas da década pode mudar de rumo da noite para o dia.
O anúncio do fim e o cronograma de encerramento
A confirmação inicial veio por meio de uma publicação nos fóruns oficiais da comunidade Meta. O Horizon Worlds, a aposta original da Meta para criar um metaverso em realidade virtual, deixaria de funcionar em headsets após 15 de junho de 2026. A partir dessa data, o aplicativo continuaria disponível apenas para smartphones com iOS e Android. mundoconectado
O plano previa duas etapas de desativação. A partir de 31 de março, os mundos individuais do Horizon Worlds e os eventos associados deixariam de aparecer na loja do Quest, e os donos de headsets perderiam o acesso a ambientes como Horizon Central, Events Arena, Kaiju e Bobber Bay, que estavam entre os espaços mais frequentados da plataforma desde o lançamento. A etapa final, prevista para 15 de junho, removeria o aplicativo por completo dos headsets. mundoconectado
Outra funcionalidade afetada seria o Hyperscape Capture, recurso em fase beta que permitia aos usuários capturar e visitar reconstruções tridimensionais de locais reais. Segundo o comunicado da época, o compartilhamento social dessas capturas deixaria de existir, ainda que a captura individual permanecesse disponível. Era justamente essa dimensão coletiva, de visitar reconstruções feitas por outras pessoas, que justificava a existência do recurso dentro de uma plataforma pensada para conexão social.
A reviravolta de Bosworth e o que muda na prática
A virada aconteceu rápido. Menos de um dia após o anúncio, o CTO da Meta, Andrew Bosworth, publicou uma mensagem no Instagram afirmando que o Horizon Worlds seguiria funcionando em realidade virtual por tempo indeterminado, revertendo a decisão divulgada horas antes. Segundo ele, a mudança de rumo veio depois que usuários entraram em contato com a empresa demonstrando preocupação com a perda de acesso aos jogos que já utilizavam na plataforma.
Bosworth também tentou controlar a repercussão do anúncio original. Em sua publicação, afirmou que havia “muita desinformação” circulando sobre os planos da companhia, e completou dizendo que o Horizon “não está” morto, apesar do título dado por muitos veículos ao anúncio inicial. Ele reforçou que a empresa segue investindo em VR e já trabalha nas próximas duas gerações de headsets. mundoconectadomundoconectado
Apesar do recuo, nem tudo voltou ao estado anterior. O CTO deixou claro que não haverá novos jogos adicionados ao Horizon Worlds em VR daqui para frente. Os títulos já existentes continuam acessíveis normalmente nos headsets Quest, mas o esforço de desenvolvimento e o motor Horizon Unity permanecem mantidos apenas para manutenção, enquanto toda a energia criativa da empresa migra para o aplicativo mobile e para o novo Horizon Engine.
Os números por trás da guinada para o mobile
A justificativa da Meta para a mudança de estratégia se apoia em dados apresentados em fevereiro pela VP de Conteúdo do Reality Labs, Samantha Ryan. Segundo ela, o número de mundos exclusivos para mobile cresceu de zero para mais de 2.000 ao longo de 2025, e o número de usuários ativos mensais na versão móvel quadruplicou no mesmo período. Além disso, quatro criadores teriam atingido um milhão de dólares em receita acumulada, e quase uma centena faturou seis dígitos no ano. mundoconectadomundoconectado
Ainda assim, a empresa reafirma compromisso com o hardware de realidade virtual. Em 2025, foram quase 150 milhões de dólares em programas para desenvolvedores, e o Meta Horizon+ ultrapassou um milhão de assinantes ativos com um catálogo de mais de 100 jogos. Um dado chama atenção nesse contexto: 86% do tempo efetivo que os usuários passam nos headsets é consumido com aplicativos de desenvolvedores independentes, não com produções próprias da empresa, o que ajuda a explicar por que a Meta trata o fim do Horizon Worlds em VR como algo separado do futuro do Quest. mundoconectadomundoconectado
O episódio também expõe contradições internas. No início de 2026, a companhia demitiu mais de mil funcionários da divisão de metaverso e fechou três estúdios de desenvolvimento em VR, movimentos que reforçam a migração de prioridades para inteligência artificial. Some se a isso o fato de que o Horizon Worlds nunca conseguiu atrair grandes audiências, tendo ficado na casa de algumas centenas de milhares de usuários mensais ativos, um número modesto se comparado aos mais de 100 milhões de usuários diários do Roblox, concorrente direto no segmento de mundos virtuais sociais.
Passados quase dez anos desde que a então Facebook trocou de nome para sinalizar uma aposta existencial no metaverso, o Reality Labs, divisão responsável por esse projeto, já soma dezenas de bilhões de dólares em prejuízo acumulado. O episódio do Horizon Worlds resume bem o momento da empresa: um recuo público, motivado pela reação dos usuários, que convive lado a lado com cortes internos e uma migração silenciosa de recursos para outras frentes, como inteligência artificial e óculos inteligentes.
Para o público que acompanha o setor, o caso deixa um alerta importante sobre a diferença entre discurso e prática dentro de grandes empresas de tecnologia. Anúncios de encerramento, por mais oficiais que pareçam, podem ser revertidos rapidamente quando a pressão de usuários e a repercussão negativa colocam em xeque a imagem da companhia, ainda que decisões estruturais, como demissões e fechamento de estúdios, sigam seu curso nos bastidores.
Fontes:
Mundo Conectado, anúncio do fim | Mundo Conectado, recuo da Meta | CNBC