Enquanto o Horizon Worlds encerrava em VR, a Meta lançava quatro novos modelos de óculos inteligentes e mirava 10 milhões de unidades vendidas.
Existe uma ironia bonita no que aconteceu com a Meta nas últimas semanas. No mesmo período em que o Horizon Worlds era desligado dos headsets Quest, encerrando a versão mais ambiciosa da aposta da empresa no metaverso em realidade virtual, um produto completamente diferente vivia o momento oposto: os óculos inteligentes com inteligência artificial acumulavam filas de espera, forçavam a empresa a adiar lançamentos internacionais por falta de estoque e impulsionavam planos para dobrar a produção até o final de 2026. O metaverso não morreu. Ele apenas trocou de forma. E a pergunta que começa a ganhar corpo é se os óculos inteligentes são, de fato, o caminho que o mundo imersivo sempre deveria ter seguido.
Por que os óculos inteligentes estão explodindo quando o VR fracassou
A lógica por trás do sucesso dos óculos inteligentes é, no fundo, simples: eles pedem menos do usuário. Não exigem que a pessoa abandone o mundo físico, não causam isolamento social e não dependem de um ambiente virtual previamente construído. O dispositivo incorpora um sistema avançado de inteligência artificial multimodal, permitindo que os usuários processem informações visuais e auditivas em tempo real diretamente pelo acessório, eliminando a necessidade de consultar constantemente a tela do smartphone. É tecnologia que se encaixa na vida, não tecnologia que pede uma vida paralela para funcionar. Mix Vale
Os óculos Ray-Ban com IA apresentaram forte desempenho comercial, com mais de sete milhões de pares vendidos no último ano. O total combinado de 2023 e 2024 havia sido de apenas dois milhões de unidades, o que mostra uma aceleração expressiva de adoção. Esses números contrastam diretamente com o destino do Horizon Worlds, cujo aplicativo mobile gerou apenas 1,1 milhão de dólares em receita total dos consumidores apesar de décadas de bilhões investidos na plataforma. Olhar Digital
O diferencial está na proposta de valor percebida. Um par de óculos com câmera, microfone, alto-falante e assistente de IA cabe na rotina de quem vai ao trabalho, ao mercado, pratica esporte ou viaja. Responde perguntas em tempo real, permite tirar fotos sem tirar o celular do bolso, faz chamadas com as mãos livres e navega por informações sem exigir que a pessoa pare o que está fazendo. A experiência imersiva acontece dentro do mundo real, não apesar dele.
O que a Meta está preparando e por que 2026 é um ano decisivo para os wearables
A empresa não está parada diante desse sucesso. A Meta pretende lançar até quatro novos modelos de óculos inteligentes antes do final de 2026, incluindo modelos com os codinomes internos “Modelo”, “Luna”, “RBM2 Refresh” e “Mojito VIP”. Os novos dispositivos incorporarão os modelos de IA da Meta, incluindo o inédito agente Hatch. A empresa projeta vender 10 milhões de wearables no segundo semestre de 2026, com expansão para novos países. Dataconomy PT
Há também um movimento estratégico no sentido de ampliar o público potencial. A Meta está planejando ampliar sua linha de óculos inteligentes Ray-Ban com novos modelos voltados especificamente para usuários que precisam de lentes corretivas. Os dispositivos terão formatos distintos, um mais retangular e outro arredondado, e devem ser comercializados por meio de redes tradicionais de óticas. O CEO Mark Zuckerberg já sinalizou publicamente que enxerga nesse mercado um potencial enorme, dado que bilhões de pessoas no mundo usam algum tipo de correção visual. Olhar Digital
A demanda surpreendeu até a própria empresa. A Meta adiou o lançamento internacional dos óculos Ray-Ban Display porque a demanda nos Estados Unidos superou rapidamente a oferta disponível, com listas de espera dos consumidores americanos se estendendo ao longo de 2026. Mercados como Reino Unido, França, Itália e Canadá ficaram na fila enquanto a empresa corria para ampliar a capacidade de produção em parceria com a EssilorLuxottica. Yahoo Finance
O que os óculos inteligentes revelam sobre o futuro do mundo digital imersivo
A ascensão dos óculos com IA não é apenas uma história de produto bem-sucedido. É um sinal sobre a direção que a tecnologia imersiva está tomando. O metaverso que estava sendo vendido em 2021 era um destino: você entrava em um mundo virtual, habitava um avatar, interagia em espaços construídos digitalmente. O que os óculos inteligentes oferecem é diferente: eles trazem camadas digitais para o mundo físico, em vez de substituí-lo.
O mercado de wearables está cada vez mais competitivo, com várias empresas testando novas formas de juntar hardware leve, software inteligente e interfaces menos dependentes do smartphone. É precisamente por isso que 2026 pode ser um ano decisivo para o segmento. Além da Meta, empresas como Rokid, RayNeo e outras apresentaram alternativas mais acessíveis com funcionalidades semelhantes, o que sugere que o mercado está se formando em torno de uma demanda real, não de uma narrativa de investimento. MaisTecnologia
Para quem acompanha o espaço do metaverso e da realidade aumentada, o cenário atual pede uma atualização de lente, literalmente. A batalha não está mais sendo travada em mundos virtuais construídos do zero, mas na camada de sobreposição entre o digital e o físico: IA que enxerga o que você vê, responde ao que você pergunta e age no mundo real junto com você. Isso não é o metaverso que foi prometido. Mas pode ser o único que as pessoas vão efetivamente adotar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
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