Mostra imersiva utiliza óculos VR, áudio e cadeiras giratórias para apresentar produções sobre Abdias Nascimento, Darcy Ribeiro e Eunice Paiva.
A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro abriu espaço para uma experiência que vai além da tradicional sala de cinema. Nesta segunda-feira, 15 de setembro, o público poderá acompanhar produções brasileiras utilizando óculos de realidade virtual, fones de ouvido e assentos giratórios, em uma proposta que coloca o espectador dentro dos ambientes apresentados pelos filmes.
A programação integra a mostra “Realidade Virtual: Imersão em Persona”, realizada com produções do projeto Visita 360, desenvolvido pelo Senado Federal. Três experiências fazem parte da seleção e abordam personagens importantes da história brasileira: Abdias Nascimento, Darcy Ribeiro e Eunice Paiva.
A sessão desta segunda acontece das 18h às 22h, na Universidade Católica de Brasília (UCB). A programação imersiva também terá apresentações em outros momentos do Festival de Brasília, ampliando o acesso do público à experiência durante a realização do evento.
Diferentemente de um filme convencional, no qual o enquadramento determina exatamente aquilo que o espectador observa, uma produção em realidade virtual pode permitir que a pessoa olhe ao redor e explore diferentes partes do ambiente. A tecnologia transforma a tela tradicional em um espaço audiovisual que envolve o campo de visão do visitante.
A iniciativa mostra como tecnologias normalmente associadas ao metaverso, aos games e aos headsets de realidade virtual estão chegando com mais força ao cinema, aos museus e às instituições culturais brasileiras. A questão deixa de ser apenas como assistir a um filme e passa a envolver outra possibilidade: como seria entrar no espaço em que aquela história está sendo contada?
Como funciona a experiência de realidade virtual no Festival de Brasília?
A proposta da mostra é transformar a relação entre público e obra audiovisual. Para participar, os visitantes utilizam headsets de realidade virtual, fones de ouvido e cadeiras que permitem movimentação, criando condições para observar o conteúdo em diferentes direções.
Essa característica muda significativamente a linguagem audiovisual. No cinema convencional, diretor e fotógrafo controlam o enquadramento. Quando uma câmera mostra determinado personagem, por exemplo, praticamente todos os espectadores observam a mesma composição naquele momento.
Na realidade virtual, essa lógica pode ser diferente. O espectador ganha liberdade para movimentar a cabeça e observar partes distintas do cenário. O espaço ao redor passa a fazer parte da narrativa, criando uma sensação maior de presença dentro da experiência.
A programação apresentada no Festival de Brasília reúne três produções do projeto Visita 360. As obras utilizam a tecnologia para aproximar o público das trajetórias de Abdias Nascimento, Darcy Ribeiro e Eunice Paiva, nomes relacionados a diferentes momentos da história política, social e cultural brasileira.
A experiência dedicada a Abdias Nascimento aborda a trajetória do intelectual, artista, ativista e uma das principais referências brasileiras na luta contra o racismo. A utilização de um ambiente imersivo permite explorar elementos relacionados à sua história utilizando uma linguagem diferente da encontrada em documentários tradicionais.
Outra produção apresenta Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor, educador e político brasileiro que teve participação importante nas discussões sobre educação e formação social do país. A tecnologia funciona como instrumento para apresentar aspectos de sua trajetória de maneira espacial e interativa.
A terceira experiência é dedicada a Eunice Paiva, advogada e defensora dos direitos humanos cuja história ganhou nova projeção pública nos últimos anos. As três produções utilizam a realidade virtual como uma maneira de aproximar memória, documentação histórica e novas formas de narrativa audiovisual.
A sessão desta segunda-feira acontece na Universidade Católica de Brasília. A programação também prevê novas apresentações durante o festival, incluindo atividades nos dias 17 e 19 de setembro, permitindo que outros visitantes tenham contato com o formato.
Por que a realidade virtual muda a maneira de assistir a um filme?
A principal diferença está na sensação de presença. Em uma sessão tradicional, existe uma separação física evidente entre espectador e obra: o público está sentado diante de uma tela. No ambiente virtual, a imagem passa a ocupar grande parte ou todo o campo visual do usuário.
Essa característica permite construir narrativas nas quais o espaço possui tanta importância quanto os personagens. Uma sala, uma paisagem ou uma reconstrução histórica deixa de funcionar apenas como cenário mostrado pela câmera e passa a ser percebida como um ambiente ao redor do espectador.
Isso também cria novos desafios para cineastas. Se o público pode escolher para onde olhar, o diretor precisa encontrar outras maneiras de conduzir sua atenção. Sons, movimentos, iluminação e posicionamento de objetos podem funcionar como elementos narrativos para indicar onde determinado acontecimento está ocorrendo.
O resultado está mais próximo de uma experiência espacial do que de uma simples projeção audiovisual. É justamente nesse ponto que cinema imersivo e tecnologias associadas ao metaverso começam a se encontrar.
A palavra metaverso ficou muito associada, nos últimos anos, à ideia de mundos virtuais persistentes nos quais usuários poderiam trabalhar, jogar e socializar. Entretanto, parte das tecnologias desenvolvidas para essa visão encontrou aplicações mais imediatas em outras áreas.
Realidade virtual passou a ser utilizada em treinamento profissional, educação, saúde, arquitetura, turismo, exposições e entretenimento. Museus também começaram a experimentar reconstruções digitais de espaços históricos e experiências que não poderiam ser reproduzidas fisicamente.
O cinema imersivo segue uma direção semelhante. Em vez de substituir as salas tradicionais, a tecnologia cria uma categoria diferente de conteúdo. Um longa-metragem convencional continua funcionando melhor em determinadas narrativas, enquanto VR pode ser especialmente interessante quando a sensação de estar presente no ambiente possui importância para a história.
Existe ainda uma diferença prática importante. Experiências de realidade virtual normalmente atendem menos pessoas simultaneamente porque cada visitante precisa utilizar um equipamento individual. Isso torna a operação diferente da exibição de um filme para centenas de espectadores em uma única sala.
Realidade virtual pode se tornar uma nova linguagem para o cinema brasileiro?
A presença dessas produções dentro do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ajuda a aproximar tecnologias imersivas do circuito cultural nacional. O evento é um dos mais tradicionais espaços dedicados ao audiovisual brasileiro e funciona historicamente como vitrine para filmes, profissionais e novas discussões sobre cinema.
Ao incluir experiências em realidade virtual, o festival também coloca em debate uma transformação que já acontece internacionalmente. Grandes festivais e instituições culturais vêm abrindo áreas específicas para XR, realidade virtual, realidade aumentada e narrativas imersivas.
Para o audiovisual brasileiro, a tecnologia pode criar novas possibilidades principalmente em documentários, educação, patrimônio histórico e memória. Espaços que não existem mais podem ser reconstruídos digitalmente, enquanto acontecimentos históricos podem ser apresentados utilizando ambientes tridimensionais.
Museus e instituições públicas também podem utilizar o formato para ampliar o acesso a seus acervos. Uma exposição física está limitada ao espaço disponível e à localização do visitante. Uma experiência digital pode, em determinadas situações, ser distribuída para escolas, universidades e outros centros culturais.
O desafio continua sendo o acesso ao equipamento. Headsets de realidade virtual ainda possuem custo elevado para grande parte do público brasileiro e não estão presentes nas residências na mesma escala de smartphones, computadores ou televisores.
Eventos culturais podem funcionar como porta de entrada justamente porque oferecem o equipamento temporariamente. O visitante não precisa possuir um headset para experimentar a tecnologia e entender como funciona uma narrativa construída para realidade virtual.
Também existe um desafio relacionado à produção. Criar conteúdo imersivo exige conhecimentos diferentes daqueles utilizados no audiovisual tradicional, envolvendo captura em 360 graus, modelagem tridimensional, áudio espacial, programação e desenvolvimento de interfaces.
A expansão de cursos, laboratórios universitários e projetos culturais pode ajudar a formar profissionais capazes de trabalhar nessa área. Quanto maior a disponibilidade de ferramentas e equipamentos, maior também tende a ser o número de produções brasileiras experimentando formatos imersivos.
A mostra do Festival de Brasília representa justamente essa aproximação entre cinema brasileiro, patrimônio histórico e tecnologias do metaverso. Em vez de apresentar realidade virtual apenas como demonstração tecnológica, a programação utiliza o recurso para contar histórias ligadas à memória brasileira.
A sessão desta segunda-feira, 15 de setembro, oferece ao público uma oportunidade concreta de experimentar essa transformação. Outras apresentações previstas durante o festival ampliam a possibilidade de contato com as produções.
Ainda é cedo para afirmar que headsets substituirão telas ou salas de cinema — e essa nem parece ser a direção mais provável. O que experiências como “Realidade Virtual: Imersão em Persona” mostram é o surgimento de uma linguagem complementar, na qual o espectador deixa de observar a história apenas de fora e passa a ocupar um espaço dentro dela.