O Google apresentou três projetos que aproximam cinema, inteligência artificial e realidade estendida durante a 83ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza, realizada na Itália entre 2 e 12 de setembro de 2026. As produções foram apoiadas pela iniciativa 100 ZEROS e integram uma programação dedicada a experiências imersivas, nas quais o público deixa de apenas assistir à obra e passa a interagir com personagens, ambientes e elementos digitais.
Os trabalhos foram apresentados no contexto do Venice Immersive, seção que chegou à sua décima edição em 2026. Segundo La Biennale di Venezia, a seleção reuniu 68 projetos de 26 países. A programação ocorreu na ilha de Lazzaretto Vecchio, no Lido de Veneza, consolidando a realidade estendida como uma frente reconhecida dentro de um dos principais festivais internacionais de cinema.
NEVATARS usa inteligência artificial para ampliar a narrativa
Entre os destaques está NEVATARS, uma animação em realidade mista dirigida por Andy Serkis e Josh Nelson Youssef. A obra acompanha personagens digitais esquecidos dentro de um computador e foi selecionada para a competição oficial do Venice Immersive. Com duração de 31 minutos, o projeto combina narrativa audiovisual e interação conversacional em tempo real.
De acordo com a página de NEVATARS no site de La Biennale di Venezia, a produção utiliza recursos de inteligência artificial baseados em Gemini e Vertex AI. A aplicação dessas ferramentas permite que o público converse com os personagens digitais durante a experiência, modificando a relação tradicional entre espectador e obra sem abandonar a estrutura de uma produção cinematográfica.
A proposta evidencia uma mudança na linguagem do cinema imersivo. Em vez de utilizar a tecnologia apenas para criar imagens tridimensionais ou ampliar a sensação de presença, o projeto incorpora sistemas conversacionais à própria narrativa. A inteligência artificial passa, assim, a funcionar como parte do modo de acesso à história e aos seus personagens.
Darwin digital é parte da experiência em Galápagos
Outro projeto apresentado em Veneza foi Galápagos: The Last Eden, uma experiência imersiva narrada por Margot Robbie. A produção conduz o público por ambientes naturais e permite explorar diferentes elementos do arquipélago em uma experiência construída para dispositivos de realidade estendida.
Um dos recursos centrais é a possibilidade de conversar com uma representação digital de Charles Darwin. Conforme informado pelo Google, esse personagem é alimentado por ferramentas de inteligência artificial espacial e por informações relacionadas aos escritos do naturalista. A interação cria uma camada adicional para a narrativa, permitindo que o visitante explore o conteúdo por meio de perguntas e respostas, em vez de seguir somente uma sequência pré-determinada.
O projeto também mostra como a realidade estendida pode ser aplicada à educação, à divulgação científica e à interpretação de ambientes naturais. Ao combinar exploração espacial, narração e inteligência artificial, a obra transforma o visitante em participante ativo da experiência, aproximando o formato de outras iniciativas ligadas à computação espacial e aos mundos virtuais.
Sedona transforma teaser 2D em experiência tridimensional
O terceiro destaque é Sedona, um thriller psicológico desenvolvido pelo estúdio independente Asylm Studios. Nesse caso, a colaboração com o Google esteve relacionada à aplicação de uma tecnologia de autoespacialização baseada em inteligência artificial.
O recurso foi utilizado para transformar um teaser originalmente produzido em duas dimensões em uma experiência estereoscópica em 3D para dispositivos compatíveis com realidade estendida. A técnica amplia as possibilidades de adaptação de conteúdos audiovisuais já existentes, levando materiais concebidos para telas convencionais a formatos com maior percepção de profundidade.
A experiência de 100 ZEROS apresentada pelo Google Itália reúne, portanto, três caminhos diferentes para o uso da tecnologia no audiovisual: personagens capazes de conversar, ambientes exploráveis e conversão de imagens bidimensionais para uma apresentação estereoscópica.
Android XR amplia a estratégia do Google
A presença dos projetos em Veneza também se relaciona ao avanço do Android XR, plataforma desenvolvida pelo Google em parceria com Samsung e Qualcomm. Em abril de 2026, a empresa anunciou novos recursos para headsets compatíveis, incluindo conversão de conteúdos 2D em experiências tridimensionais, melhorias no rastreamento das mãos e suporte empresarial para treinamento e colaboração imersiva.
Essa evolução indica que a estratégia do Google não está limitada ao lançamento de dispositivos. A empresa também busca estimular ferramentas para criação, adaptação e distribuição de experiências imersivas. No Festival de Veneza, essa estratégia aparece aplicada ao cinema, com projetos que exploram diferentes níveis de participação do público e novas formas de construção narrativa.
Ao reunir inteligência artificial conversacional, espacialização em 3D e ambientes interativos, as produções apoiadas pela 100 ZEROS reforçam a aproximação entre cinema, realidade estendida e computação espacial. O resultado é uma experiência audiovisual em que assistir, explorar e conversar passam a fazer parte do mesmo processo.