Pedro Henrique Torres Bianchi, sendo formado, mestre e doutor em Direito processual pela USP, pontua que a maior parte das crises que levam empresas ao limite poderia ter sido prevenida. Não por sorte ou por ausência de adversidades externas, mas por decisões melhores, tomadas antes que os problemas se tornassem irreversíveis. Esse diagnóstico aponta para uma realidade pouco discutida no ambiente de negócios brasileiro: a fragilidade dos mecanismos internos de controle e governança corporativa ainda é um fator silencioso de destruição de valor em empresas de médio e grande porte.
O cenário brasileiro é marcado por empresas que crescem rapidamente sem estruturar processos decisórios robustos. Quando o ambiente macroeconômico se deteriora ou surgem conflitos societários, essas organizações enfrentam dificuldades que vão muito além do fluxo de caixa. A ausência de uma gestão de risco eficiente e de mecanismos claros de administração empresarial transforma problemas gerenciáveis em crises de proporções muito maiores.
Continue lendo para entender como as práticas de governança corporativa funcionam na prática como um sistema de proteção antecipada, capaz de blindar a empresa diante de cenários adversos.
O que é, afinal, governança corporativa no contexto de médias e grandes empresas?
Governança corporativa não é um conceito restrito a companhias abertas ou multinacionais. Para Pedro Bianchi, trata-se de um conjunto de princípios, estruturas e processos que definem como uma organização é dirigida, controlada e responsabilizada, independentemente do seu porte ou da natureza do seu capital.
Na prática, isso envolve a separação clara entre as funções dos sócios, dos gestores e dos conselhos de administração, a definição de alçadas de decisão, a transparência nas informações financeiras e operacionais, e a existência de mecanismos que permitam identificar riscos antes que se tornem crises. Empresas que operam sem essas estruturas costumam concentrar poder decisório em uma única pessoa, o que reduz a capacidade de autocrítica e aumenta a vulnerabilidade da organização.
Como a falta de governança alimenta crises que poderiam ser evitadas?
A relação entre ausência de governança e crise empresarial raramente é direta. O que ocorre, na maior parte dos casos, é um acúmulo silencioso de decisões inadequadas, tomadas sem os controles necessários. Como elucida Pedro Henrique Torres Bianchi, esse processo pode levar anos até se manifestar de forma crítica, mas quando emerge, já costuma estar além de soluções simples.

Entre os padrões mais recorrentes estão a falta de segregação de funções financeiras, a ausência de auditorias internas regulares, contratos celebrados sem acompanhamento jurídico adequado e a inexistência de políticas formalizadas para gestão de risco. Cada um desses elementos, isoladamente, parece gerenciável. Em conjunto, criam um ambiente propício para fraudes, passivos ocultos e desequilíbrios financeiros que comprometem a continuidade do negócio.
Estrutura mínima de governança para empresas em crescimento
A implementação de uma estrutura de governança não precisa ser complexa para ser eficaz. De acordo com Pedro Bianchi, empresas em fase de crescimento acelerado devem priorizar, em um primeiro momento, quatro pilares fundamentais: transparência contábil, definição de alçadas decisórias, gestão de risco formalizada e mecanismos de resolução de conflitos entre sócios.
A transparência contábil garante que os gestores tomem decisões baseadas em dados reais, e não em percepções ou projeções otimistas. A definição de alçadas evita que decisões de alto impacto sejam tomadas unilateralmente, sem o devido escrutínio. A gestão de risco, por sua vez, permite que a empresa mapeie cenários adversos e prepare respostas antes que eles ocorram. E os mecanismos de resolução de conflitos societários, frequentemente subestimados, reduzem o risco de que disputas internas paralisem operações estratégicas em momentos críticos.
A governança corporativa no Brasil
O advogado e administrador de empresas, Pedro Bianchi, conclui que o cenário regulatório e de mercado no Brasil caminha, gradualmente, na direção de uma maior exigência por transparência e responsabilidade corporativa. Isso não ocorre apenas por pressão legal, mas também porque credores, investidores e parceiros comerciais passaram a avaliar a maturidade da gestão como um critério relevante para a tomada de decisão.
Empresas que antecipam esse movimento e estruturam sua governança de forma proativa tendem a acessar crédito em condições mais favoráveis, a atrair sócios e investidores com mais facilidade e a atravessar períodos de instabilidade com maior capacidade de resposta. O contrário também é verdadeiro: organizações que negligenciam esses mecanismos pagam um preço elevado quando o ambiente externo se deteriora.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez